Em Linha Bonita Alta está preservada parte da memória dos antepassados que viveram no Vale do Caí há um século
Em Linha Bonita Alta está preservada parte da memória dos antepassados que viveram no Vale do Caí há um século
03/01/2012 às 09:05
Não fosse por alguns marcos históricos e a lembrança dos mais antigos, a memória das linhas férreas estaria por completo esquecida. Em Linha Bonita Alta um belíssimo túnel em pedras é a marca principal do início do século passado, quando os trens cortavam o silêncio das rotas coloniais.
Em um tempo em que o Vale do Caí era apenas um caminho de ligação entre a Serra e a Capital era necessário achar um meio que interligasse as partes, já que a navegação não era possível nas colônias mais altas, como é o caso de Salvador do Sul e Barão. Os rios e arroios, repletos de quedas, impediam o transporte por lanchões até o Rio Caí, assim, era preciso um meio viável para levar as mercadorias produzidas (e trazer outras) sem que fosse no lombo dos cavalos. Os caixeiros viajantes andavam pelo Vale do Caí levando amostragem de produtos e depois de alguns meses os mesmos chegavam à região pelos barcos ou pelo trem. Caminhões eram algo raro assim como ônibus. Tudo se fazia na medida do possível, sendo praticamente inconcebível deixar as colônias para viver em grandes centros.
A estação São Salvador foi inaugurada em 1909 pela Cie. Auxiliaire. Em agosto de 1913, a estação passa a se denominar Campestre; o nome original foi restaurado algum tempo depois. Desativada no final dos anos 1970, seus trilhos foram retirados e hoje o prédio serve como centro ocupacional. Nos dias atuais a antiga estação de trem abriga as oficinas de artesanato e iniciação artística (pintura e bordado), coordenadas pela Secretaria Municipal da Cultura. No antigo armazém foi transformado em sede oficial da Oficina Municipal de Artes, sendo este denominado como Casa de Cultura Irmão Vicente Slany. Nos tempos do trem havia a necessidade de um grande armazém onde ficavam depositados couro, alimentos de primeira necessidade como sal e açúcar entre outros. É praticamente inimaginável, aos jovens de hoje, como era a realidade então, todavia, a região só se desenvolveu graças a evolução dos trilhos que cortavam as colônias ao meio.
Já a estação de Barão foi inaugurada em 1909 pela Cie. Auxiliaire. Desativada no final dos anos 1970, seus trilhos foram retirados e hoje o prédio serve de sede para secretarias da Prefeitura do Município.
O belíssimo túnel de Linha Bonita Alta fica em local remoto, todavia, passível de ser acessado de carro. Há quem vá até ele e busque por reminiscências da história de suas famílias. O túnel foi inaugurado em 1907, portanto a mais de um século, fazendo parte da vida dos moradores de então. As comunidades se estruturaram em torno das linhas férreas e muito da história de Salvador do Sul e região tem ligação com os trilhos de trem.
O local onde hoje existe a cidade e Salvador do Sul ainda não constituía sequer um povoado quando, em 1909, chegou até lá a linha de estrada de ferro que, a partir do ano seguinte, passaria a ligar Montenegro a Caxias do Sul. São Pedro da Serra era mais avançado, mesmo assim o local onde hoje se situa o centro de Salvador do Sul foi o escolhido para ser instalada a estação da estrada de ferro que serviria à importante vila de São Salvador (atual Tupandi) que era sede de um dos distritos do município de Montenegro. Era o ponto da ferrovia que ficava mais próximo daquela sede distrital. As estações de estrada de ferro não podiam ser construídas muito próximas umas das outras, para evitar o excesso de paradas do trem. Com isto, São Pedro ficou sem uma parada. Antes de Salvador, a parada mais próxima era a de Linha Bonita Alta. Depois, a de Barão. A distância de Salvador do Sul a Montenegro, pela ferrovia, era de 47 quilômetros. Até Caxias do Sul eram mais 70 quilômetros e a chegada do primeiro trem até lá só ocorreu em 8 de julho de 1910. Antes disto, em 1º de dezembro de 1909, já era inaugurada a estação de Salvador do Sul.
A construção desta estrada de ferro foi uma obra difícil e demorada. Ela exigiu a construção de pontes e viadutos, escavações na rocha e até a perfuração de um túnel. Ela foi iniciada em 1898, pela empresa belga Companhia Auxiliar de Estradas de Ferro, que venceu a concorrência realizada pelo governo federal para a construção e exploração de estradas de ferro no Rio Grande do Sul. A construção levou doze anos para ser completada. Antônio Borges de Medeiros era o governador do estado nesta época e continuou sendo durante a maior parte do período de construção da ferrovia. O engenheiro responsável pela sua construção foi Henrique José Wiedersphan, que executou obras notáveis. Um destaque foi o túnel de Linha Bonita Alta, que foi o primeiro da América Latina. Ele tinha 96 metros de extensão e era em curva.
Em 10 de abril de 1922, por decreto do presidente Epitácio Pessoa, a ferrovia passou a pertencer ao governo do estado e, logo, passou a produzir grandes prejuízos. Em 1952, para livrar-se deles, o governo estadual devolveu ao federal o controle total das ferrovias no estado.