Antigo cinema poderá ser tombado

Cultura

A valorização histórica do prédio está sendo estuda pela municipalidade em parceria com a Lupatech


25/01/2011 às 20:06

Feliz -

A administração municipal encaminhou à Câmara de Vereadores em dezembro o Projeto de Lei que autoriza a abertura de crédito adicional no valor de R$ 150 mil, em regime de urgência. Porém, ainda não foi votado. O presente projeto visa abertura de crédito para fins de aquisição, pelo Município, do imóvel localizado na Avenida Voluntários da Pátria, conhecido como “Casarão dos Noll”, ou mesmo “antigo Cinema” por ter sido de propriedade de Amália Noll e ter sido sede, antigamente, de um cinema. O Executivo e a Lupatech S/A chegaram a um entendimento quanto à aquisição e utilização da área. Pelo acordo, o Município irá adquirir a parte predial do imóvel, enquanto a empresa, os terrenos localizados aos fundos, que fazem divisa com sua planta industrial. Porém, tal acordo não se resume a aquisição do imóvel: a Lupatech manifestou intenção de, através de Leis de incentivo a cultura, as quais têm acesso, atuar também na restauração do prédio, verdadeiro patrimônio cultural e histórico de Feliz. Dessa forma, através desta ação Lupatech e Município de Feliz conciliam o desenvolvimento econômico com preservação do patrimônio histórico, e, conjuntamente, dão o primeiro passo na concretização de um projeto que, certamente, irá marcar profunda e positivamente o aspecto cultural e de preservação de nossa história. A história mais recente de Feliz não contempla a presença de salas de cinema, mas conforme a lembrança dos mais antigos houve na cidade a valorização da cultura na telona. Mérito de Amália Noll, que nas proximidades da ponte de ferro tinha uma sala onde passava filmes. O relato feito por Solange ten Cate, professora e pesquisadora da história regional, é rico de detalhes e merece ser lido com atenção, trazendo a tona a história do Solar dos Ruschel, que para muitos ainda é visto como o Cinema de Dona Amália. Solar dos Ruschel No dia 17 de outubro de 1846, chegaram a Porto Alegre Sebastian Ruschel e Ana Maria Mayer Ruschel e sua família de nove filhos e se instalaram na Feliz , adquirindo lotes de terras do governo imperial na recém formada colônia. Instalado na Feliz, Sebastião construiu um grande casa para abrigar sua família de 10 filhos, pois mais dois filhos nasceram em solo brasileiro. A casa abrigava diversas funções e era a parada obrigatória para os imigrantes, principalmente italianos, quando de passagem para a serra. E essa ligação com os italianos ficaria imortalizada, com a doação de mudas de parreira de uva por parte dos Ruschel. Em meados de 1900, Jacob Ruschel, um dos filhos, abriu uma sortida casa comercial e que durante muitos anos era referência na região. É interessante notar que a frente do prédio foi calçada com o trabalho de negros libertos que perambulavam pela região e não tinham trabalho, nem subsistência. Então Jacob os contratou para este serviço que bem sabiam fazer, aprendido nas fazendas onde eram escravos e alguns depois ficaram pela região para serviços de outros proprietários. Uma das filhas de Jacob se casou com Ernesto Noll. Desta união nasceu Amália (que era uma entusiasta da cultura). Sendo muito ligada à sua avó , Ana, esposa de Jacob, Amália cresceu na casa dos avós. Dona Amália Amália Noll nasceu na cidade de Feliz, em 16 de março de 1903, filha de Ernesto Noll e Ana Maria Ruschel. Faleceu aos noventa anos e está enterrada no cemitério católico da Feliz, mas a sua memória é ainda muito viva pelos atos culturais por ela incentivados. Amália foi uma mulher que muito cedo assumiu sua identidade de mulher forte e ousada para a época. Ainda muito jovem foi perfeita na arte de fotografar. Ia para Porto Alegre ou São Leopoldo treinar e adquirir experiência. Possuía bons aparelhos e não perdia ocasião para registrar todas as ocasiões interessantes e foi praticamente uma pioneira na arte de registrar acontecimentos. Foi ela que registrou a grande enchente do ano de 1941; fotografou a visita do Dr. Getúlio Vargas, presidente da República, na passagem pela Feliz, na década de trinta. Registrava passeio de amigos pelo Rio Caí, de encontros da turma em passeios, festa de casamento, retratos de famílias e tantos outros momentos. Quando ia para o interior, a chamado de uma família, ela se vestia com roupas de homem, pois a profissão de fotógrafo não era trabalho aceito para mulheres. Amália nunca se casou. Com a morte dos pais, ela assumiu a casa-mãe da família Ruschel, na época uma bela propriedade, construída pelo imigrante Sebastião Ruschel . No local situava-se a casa comercial de Jacob Ruschel. Com a morte precoce deste, Amália assumiu a propriedade, pois morava no local. Por muitos anos ela gerenciou um pequeno comércio de secos e molhados. Mais tarde alugou algumas peças para diversos fins, como sala do dentista Ivo Assmann, sala para instituto de beleza de Hardy Tempass. Foi ali que se instalou por primeiro o Sindicato Rural de Feliz. Mas o que fazer do grande salão onde funcionou outrora a casa comercial? Durante muitos anos ele transformava o local em salão de baile, atendendo pessoas que não eram associadas na Sociedade Cultural de Feliz e para oferecer mais um local de entretenimento. Mas Amália acompanhava a evolução dos tempos. E foi então que ela pensou em proporcionar para o povo de Feliz uma diversão que só existia em cidades grandes. Importou direto da Alemanha uma máquina de projeção de filmes. Era uma moderna e famosa Bauer. Isto pelos meados de 1960. Foi grande a sensação em toda a redondeza. Quem não vinha ao cinema da “Malche”? Assistir aos filmes de Teixeirinha, Tarzan, Mazzaropi, e o famoso Noviça Rebelde e os roteiros de Sissi, A Imperatriz. Mas, havia alguns problemas que ela soube resolver. Os técnicos da máquina, para cuidar da projeção, eram pessoas do lugar. Primeiro foi o Bino (cujo sobrenome não se tem certeza), depois Zeca Spier, seguido de Evaldo Trein e mais tarde Cláudio Schmitz. Certamente o trabalho de técnico de exibição de vídeo ajudou muito a Cláudio Schmitz a descobrir os segredos da imagem, já que é, nos dias atuais, um dos mais renomados fotógrafos do Vale do Caí. As fitas que vinham em grandes tubos de lata eram enviadas por ônibus, de Porto Alegre, por Astrogildo Ströher e na rodoviária de Feliz eram buscados de carrinho de mão, pelo jovem Cláudio. Schmitz nos conta que, tendo sua mãe trabalhado na casa de Amália, ele como guri assistiu ao desenrolar dos acontecimentos. Como na época, havia filmes proibidos para menores, em dias de sessão, Amália passava no salão ás cincos horas e mandava todos os menores para fora da sala de cinema. Quando o filme era próprio para crianças, ela oferecia uma sessão pela tarde. Casa sempre lotada, muitas vezes um filme era reprisado uma, duas, três ou mais vezes , até todos os interessados pudessem satisfazer sua curiosidade. Sentados em bancos de madeira ou cadeiras de palha, era silêncio total ao começar o ruído da máquina. E, no melhor do filme, lá se ia a sequência e arrebentava a fita. O que ocorria por serem já muito usadas e seu aluguel mais barato, as fitas facilmente arrebentavam. E “ Malche “ aproveitava para vender umas balas ou alguma gasosa, na luz de uma lanterna. Refeito, o estrago, continuava a rodagem do filme. Nos anos de 70 ela parou de oferecer a diversão pela precariedade do local e também por ela já estar cansada dos compromissos. Ficou só com o atendimento no balcão com poucos produtos para pessoas que transitavam pela casa em salas alugadas. Com sua saúde abalada ficou internada, em seus últimos dias, em casa de saúde em Novo Hamburgo. Assim como foi a passagem de Amália no século vinte, assim também a importante casa dos Ruschel foi do apogeu à ruína, para grande sentimento de uma boa parte da família, que não tiveram oportunidade de preservá-la. Inúmeras vezes foi feito um trabalho conjunto com o patrimônio público de preservação e destinação de locais históricos, como esta propriedade, para fins culturais, sempre sem êxito. Berço das uvas A cultura da uva em escala maior no Rio Grande do Sul, só começou a ficar importante na vida dos habitantes, a partir do fim do século XIX, com a vinda dos imigrantes alemães e italianos que ocuparam as terras, subindo os rios afluentes do Guaíba. Já no início do século XX a vitivinicultura já era bastante desenvolvida, embora o processo de fabrico de vinho e sucos ainda era bastante precário. Já então se pensava numa escola de ensino profissional que ensinasse novas técnicas, pois faltava pessoal capacitado na área.. A verdadeira vitivinicultura gaúcha começou no município de Feliz. Conforme artigo publicado em 1946, um Ruschel deu seis mudas aos italianos. Conta a história: quando o clima e os parasitas mataram as videiras, que Felix Radaelli trouxe da Itália, em 1875, este que era um dos primeiros imigrantes italianos a pisar em solo gaúcho, na região onde hoje se localiza Farroupilha, não quis ficar sem vinho e a solução foi ir até a Picada Feliz, onde existia um parreiral dos Ruschel. Radaelli conseguiu seis bacelos (vara de parreira) de Jacó Ruschel, filho do primeiro imigrante alemão a fixar-se em Feliz, em 1846. Com todo o cuidado e carinho viu as mudas vingarem e se desenvolver, multiplicando, assim o seu parreiral. Estava nascendo a cultura da uva em solo gaúcho, ainda hoje uma das bases da economia do Rio Grande do Sul.

Edição nro. 211

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